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A VOCAÇÃO CENTENÁRIA DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE AVEIRO PARA A ACTIVIDADE HOSPITALAR
Cada comunidade cuidava dos seus pobres, era uso durante a Idade Média, uma vez que não existiam grandes diferenças económicas entre a população. A solidariedade exercia-se dentro das corporações acudindo-se aos órfãos, viúvas, idosos e aos doentes.
O crescimento da burguesia e a assunção de hábitos capitalistas originam o progressivo desaparecimento dos artesãos e das suas associações. As confrarias, hospitais e corporações, quase sempre de dimensões insignificantes, não podiam dar resposta às necessidades.
D. Afonso V manda visitar as albergarias, gafarias e hospitais; D. João II promove, por todo o país, a reunião dos pequenos hospitais em outros maiores e melhor apetrechados; mas será a Rainha D. Leonor a verdadeira impulsionadora da assistência com a fundação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e de todas as que lhe seguiram.
Em Aveiro, nesse mesmo ano de 1498 e na capela de Santo Ildefonso, anexa à igreja de S. Miguel, reuniram-se os irmãos, aí constituindo a sua primeira sede, levando à prática as cerimónias determinadas pelo Compromisso. Os primeiros rendimentos provinham das esmolas tiradas pelos mamposteiros quer em dinheiro quer em géneros (esmola do sal, do trigo, do vinho e do pescado). Cedo se concluiu que a então vila de Aveiro necessitava de outro apoio, mas seria só a partir de 1596 que tal se começaria a concretizar, através das diligências efectuadas pelo provedor Henrique Esteves da Veiga, junto de Filipe II, para que o rei financiasse a construção de instalações capazes de promover o cumprimento das obras de misericórdia a que a SCMA estava obrigada.
Anexo à igreja, sacristia e casa de despacho é construído o hospital que durante mais de dois séculos assistirá não só os habitantes de Aveiro e arredores, mas também peregrinos e todos os que chegavam padecendo. Atravessaram-se épocas difíceis de pestes e guerras, destacando-se os períodos das invasões francesas e das guerras civis.
Em 1852 assume a presidência da Comissão Administrativa o Dr. Francisco Tomé Marques Gomes logo iniciando tarefas para construção dum novo hospital. Surge assim o, ainda hoje, “Hospital Novo”, inaugurado às dez horas do dia 3 de Junho de 1855. Deveria ter 50 camas, mas a muito custo conseguiram-se arranjar 12. Às vicissitudes financeiras, nomeadamente em consequência de um legado contestado em tribunal, que se arrastava desde 1740, e em consequência da cólera morbus (esta epidemia obrigou a reequipar as antigas instalações) levou a que se promovessem campanhas de angariação de fundos, permitindo acudir às muitas necessidades da comunidade aveirense.
A primeira referência à necessidade de construção de um novo hospital encontra-se proposta, pelo escrivão Gustavo Ferreira Pinto Basto, em acta da Mesa de 5 de Agosto de 1883, referindo que o actual hospital já não oferece condições. Surge então o Regulamento do Hospital da Misericórdia publicado em 1893.
Olha-se de novo a sul e a primeira escolha seria o Convento das Carmelitas que se encontrava devoluto, era espaçoso, estava em bom estado e ainda não tinha destino marcado, mas logo se conclui que tal assunto não é pacífico quer com as entidades eclesiásticas, quer com as entidades públicas. Será a partir dos esforços do provedor Visconde da Silva Melo e certamente pelas trágicas consequências de mais uma epidemia (varíola), que se resolve avançar. Compra-se o terreno na Agra de Sto. António e Jacinto Agapito Rebocho vende, a preço muito reduzido, um outro terreno a sul da capela de Nossa Senhora da Ajuda. Em 1901 morre o provedor Visconde da Silva Melo, sucedendo-lhe o Dr. Jaime de Magalhães Lima que propõe para a Comissão do Hospital o Conselheiro Francisco de Castro Matoso, escolhendo-se Silva Rocha para dirigir a obra que começa em Outubro de 1901. O período conturbado que se seguiu (Regicídio, Proclamação da República e Primeira Guerra Mundial) e a consequente falta de dinheiro, só foi ultrapassado com a entrada do Dr. Lourenço Peixinho (1915) como provedor, desenvolvendo enumeras tarefas de angariação de fundos nomeadamente junto das fábricas da região que ofereceram materiais de construção, permitindo que se transferissem os doentes antes da obra concluída. Será uma nova epidemia – tifo exantemático – que em 1918 apressará as obras e o acabamento de mais um pavilhão. O hospital foi crescendo à medida das necessidades da comunidade e, das 50 camas previstas por Silva Rocha chegamos ao inicio dos anos setenta do século XX com cerca de 200 camas.
Onze dias após a Revolução de 25 de Abril de 1974 iniciam-se os contactos para a transferência do hospital para o Estado, processo que sofreu diversas vicissitudes, próprias da época que se vivia, e, curiosamente, este processo ainda hoje não se encontra encerrado.
Será já com o provedor Carlos Vicente (1980/1998) que a SCMA implementa novas formas de cumprir o Compromisso, concretizando o que é hoje o Complexo Social da Moita, desde logo dotado com serviços médicos adequados e instalações médicas de clínica geral, fisioterapia, ginásio e piscina aquecida.
A “reanimação” da vocação hospitalar da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro foi tentada em 2004 com a apresentação de um projecto para uma unidade de cuidados continuados, em sede do Programa Saúde XXI, que não foi aceite com estranha argumentação de que existiam camas de cuidados continuados em Ilhavo, Oliveira do Bairro e Murtosa. Se foram inauguradas muito recentemente unidades em Ílhavo e Oliveira do Bairro, não consta que já exista na Murtosa. Apresentamos novo projecto para uma unidade de cuidados continuados, a construir na Quinta da Moita, em 2009, ao abrigo do Programa Modelar, aprovada condicionalmente por não prever a construção de ginásio (aproveitava-se o existente), condição reposta na mesma semana em que nos foi indicada. Até hoje aguardamos o desbloqueamento deste projecto com a certeza da imensa falta que faz à comunidade aveirense e não só.
Encontramo-nos registados na Entidade Reguladora da Saúde e, no momento, possuímos ao serviço três enfermeiros, três fisioterapeutas e duas psicólogas, mais pessoal auxiliar, em permanência e dois médicos, um fisiatra e dois enfermeiros em tempo parcial.
Desde o aparecimento da doença de Alzheimer que nos vimos preocupando em proporcionar aos nossos utentes, doentes das comunidades limítrofes e respectivas famílias o melhor dos cuidados, levando a cabo formação de cuidadores e actividades de estímulo e motivação, procurando com os nossos parceiros dar a conhecer o que se vai sabendo sobre esta doença.
Infelizmente a doença de Alzheimer e outras demências não são consideradas doenças crónicas o que nos levou a apresentar um projecto em sede de POPH, que mais uma vez não foi aceite por uma razão absurda (tratava-se de um terreno doado que previa uma obrigação de construção até oito anos após a morte do doador, obrigação que procurávamos cumprir. A obrigação foi considerada um ónus pela entidade apreciadora.). Todavia o compromisso desta Santa Casa com os portadores deste tipo de enfermidade e suas famílias não nos fez esmorecer e, felizmente, a obra arrancou, ainda que a expensas próprias.

Aveiro, 2011-10-14

(Fonte: Obras editadas pela SCMA dos autores Amaro Neves e Manuel Barreira)
Última actualização 17-11-17