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O humano sentimento da compaixão e misericórdia e a virtude da caridade cristã inspiraram a criação das Santas Casas, para prestarem assistência aos mais desvalidos da sorte, pautando-se pelas prática das obras de misericórdia (todas) - as temporais e as espirituais. Para cuidar da pessoa, de corpo e alma, esta nossa instituição construiu o hospital e o seu belíssimo templo, inaugurado em 1608 (há 405 anos).
Não passa despercebida a presença do órgão setecentista no coro. Que instrumento é este? Qual o seu passado? Que lugar teve no culto e na cultura? Qual o segredo da sua longevidade?
1.- Nota histórica
1.1.- O primitivo instrumento
É atribuída a Ktsébius de Alexandria a invenção, c. de 250 a.C., do primitivo hydraulos que, pelo séc. IV d.C. daria origem ao “órgão de foles”. Tratava-se de um conjunto de 7 flautas (o popular aulos), utilizando a água para estabilizar a pressão do ar. A sua sonoridade estridente fez com que se vulgarizasse nas festas populares e se estendesse pelo Ocidente romanizado, sem, no entanto, deixar marcas muito visíveis.
Após a queda de Roma, as suas potencialidades sonoras estimularam um progressivo desenvolvimento no Império Romano do Oriente, tanto nas dimensões, como na ornamentação, adquirindo uma importância crescente que o levou até corte imperial.
Bem parecido e bem falante, era agora tão sedutora a sua voz, como vistosa a sua figura; e o antigo instrumento da rua marcava agora uma presença habitual nas festas da corte; adquirira foros de nobreza, a ponto de ser um presente de reis para reis. É assim que a sua reaparição é notada no Ocidente: como um presente do Imperador de Constantinopla a Pepino-o-Breve, Rei dos Francos, em meados do séc. VIII.
1.2.- Um precioso utensílio/instrumento (organon)
A sua (re)aparição no Ocidente captou o interesse dos monges, que de imediato se aperceberam das surpreendentes potencialidades e da inestimável utilidade do novo instrumento. Na verdade, o som contínuo fazia dele um utensílio privilegiado para o ensino e para a memorização das melodias dos Ofícios religiosos, onde até poderia eventualmente substituir uma ou mais vozes na polifonia nascente.
Os monges aplicaram-se à sua construção para finalidades diversas. Refira-se, a título de exemplo, o pequeno Régale de um só registo de palheta, para as procissões e festas no adro (ao ar livre), e o “Positivo”, também portátil, de duas oitavas, para o ensino e outras funcionalidades. Estava feita a aproximação à igreja e aberta uma exceção na tradicional aversão aos instrumentos, sempre associados às festas pagãs.
A exploração das virtualidades do órgão prosseguiu, construindo, numa segunda fase, instrumentos de maiores dimensões, onde se vai caminhando no jogo de intensidades, alturas e timbres, numa verdadeira alquimia do som, assente na ressonância natural, condimentada segundo o gosto do organeiro e do organista.
Estaremos perante um “engenho” perfeito, o mais perfeito que, juntamente com o relógio, foi produzido pelo cérebro humano até à revolução industrial, como se diria mais tarde. Estava aberta a porta da igreja ao “Rei dos instrumentos”.
1.3.- A entrada no templo
Além do seu estatuto de nobreza, este instrumento perfeito era um símbolo do universo e da beleza cósmica, uma vez que na sua feitura se utilizavam elementos dos três reinos: animal (as peles do fole e da vedação), vegetal (as diferentes madeiras) e mineral (os tubos e diversas partes da mecânica). A propósito, note-se o pormenor da terminologia das diferentes partes dos tubos: corpo, alma, pé, lábios, boca, dentes, orelhas…
Estavam reunidas as condições para, progressivamente, se integrar na grande obra de arte que é o templo cristão do Ocidente. Definitivamente instalado, a versatilidade da sua sonoridade iria conferir-lhe uma importância crescente na música litúrgica, chegando mesmo a substituir partes do texto sagrado por “versos” (pequenas peças ou improvisações), no diálogo com o coro no Ordinário da Missa e nalgumas partes do Ofício, segundo a prática vigente até ao séc. XIX,.
A partir de meados do séc. XVIII, a alternância seria gradualmente substituída pelo acompanhamento do canto integral do texto, sem, sem que, no entanto, fossem alteradas as intervenções solistas em diversos pontos da Liturgia.
1.4.- Nos tempos modernos
O aggiornamento do Concílio Vaticano II não alterou nem diminuiu a importância do órgão na Igreja latina: “Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimónias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus” (Constituição Apostólica Sacrossanctum Concilium, nº 120).
Por sua vez, o Papa Emérito Bento XVI a ele se refere nestes termos: “A grande variedade dos timbres do órgão, do piano ao majestoso fortíssimo, fazem dele um instrumento superior a todos os outros. Assim, nele ecoam todos os aspectos da existência humana. As múltiplas possibilidades do órgão lembram de algum modo, a imensidade e a magnificência de Deus” (Inauguração de um órgão em Ratisbona, 13 de setembro de 2006).
2.- Numa encruzilhada de culturas
Os descobrimentos portuguesa abriram caminho a um vasto intercâmbio entre povos e civilizações, “na dilatação da Fé e do Império”. Assim, na caminhada através de mares nunca antes navegados, viajaram também, sobretudo com os missionários franciscanos e jesuítas, diversos instrumentos considerados importantes para a missionação, incluindo pequenos órgãos construídos em Portugal; outros seriam já construídos in loco. Apareceriam testemunhos da sua presença em muitas das terras descobertas, desde os Açores e Madeira até à África, Índia, Japão e China; bastará recordar o órgão construído pelo P. Tomás Pereira (1645-1708) em Pequim. Numa perspetiva diplomática, refiram-se também os dois órgãos e seus “tangedores”, enviados por D. Manuel I ao imperador da Etiópia, e o órgão de Mariana (Brasil), oferecido por D. João V.
Mas, numa observação atenta, verificamos que na construção dos órgãos, nem tudo foi produzido em Portugal. Há materiais que, neste intercâmbio de culturas, vieram das terras descobertas, particularmente do Brasil, como é o caso das madeiras: o jacarandá, o pau-santo e o mogno do Brasil (também designado por “vinhetão”, devido à sua cor), madeira presente na caixa do órgão da igreja da Misericórdia.
É interessante notar que, tanto a compra do primitivo instrumento, em 1610, como a do atual (1759-60), foram custeadas com rendimentos dos legados de pessoas que viveram em longínquas terras descobertas: o primeiro, de Fernão Lopes da Ponte, que residira em Goa e, o segundo, de António dos Santos Maia, que residira em S. Salvador da Baía, no Brasil. O órgão tornou-se assim um bem cultural partilhado no encontro entre povos e civilizações.
3.- Um símbolo de perenidade
O órgão da Misericórdia está prestes a fazer 255 anos! Foi (re)construído em 1759/60 pelo grande organeiro, oriundo da vizinha cidade de Pontevedra, Juan Fontanes de Maqueira, designado nos documentos do arquivo por “o Fontana”. E se considerarmos a madeira da caixa, podemos recuar ao primitivo instrumento, comprado em 1610, há 413 anos!... Qual o segredo desta longevidade?
Diversos filósofos defenderam, a par dos três escolásticos transcendentais – o Uno e Bom e o Verdadeiro – um quarto transcendental - o Belo. E importantes teólogos houve que desenvolveram o seu pensamento nesta mesma direção.
Numa atitude aberta e evangelizadora, a Igreja, ao longos da sua história, dialogou sempre com o mundo através da arte - uma linguagem universal, entendida por crentes e não-crentes. De facto, na cultura ocidental, o templo, no seu conjunto, pretende ser uma obra bela e perfeita, espelho e caminho para a Beleza Suprema; nele se encontram as diferentes artes – arquitetura, escultura, pintura, música, poesia. Ele é também um bem duradouro, símbolo de perenidade, casa do Deus Eterno, encontro das artes e dos homens.
Fazendo parte de templo, o órgão deverá ser igualmente uma obra de arte em si mesmo e no seu enquadramento na beleza e perenidade do mesmo templo. Também para ele são escolhidos os melhores materiais que, a par da funcionalidade litúrgica, o integrem na finalidade evangelizadora do próprio espaço e da ação que nele se desenrola.
4.- O Organista na Colegiada da Misericórdia
4.1.- Um cargo exigente
O arquivo desta Santa Casa possui um documento de particular importância para o conhecimento do órgão e sua utilização: o Livro do Regulamento dos eclesiásticos e coro da Igreja da Misericórdia, no capítulo “Organista” [ASCMA nº 284] sem data, mas referente à fase final da colegiada (1799 - 1838).
Em primeiro lugar, o documento traça o perfil do organista e, de seguida, define os seus direitos e obrigações, fornecendo algumas informações relevantes sobre a relação entre a registação e os diferentes momentos da celebração litúrgica.
Diga-se, antes de mais, que na Misericórdia, como nas catedrais e igrejas com colegiada, o cargo de organista era muito exigente, dada a quantidade de intervenções solistas, tocando ou improvisando no diálogo com os cantores, ou acompanhando o coro.
4.2.- O perfil do organista
Ao traçar o perfil do organista, dois requisitos são colocadas de imediato: competência profissional e idoneidade moral:“O Exmo. Sr. Provedor elegerá para esta Colegiada um organista benemérito, eclesiástico, que haja de satisfazer com perícia e prontidão as obrigações que correspondem ao seu ministério e em quem reinem a modéstia e mais virtudes especialmente recomendáveis aos funcionários eclesiásticos”.
Nas suas ausências, a mesma exigência é feita na escolha do substituto: “Estando o organista impedido de vir à igreja cumprir suas obrigações por efeitos de moléstia, elegerá pessoa hábil e idónea para satisfazer as suas faltas” [..]
4.3.- O ordenado
Trata-se, obviamente, de um cargo remunerado (como os restantes membros da Colegiada), cujo vencimento era acrescido, se eventualmente incluía o ensino: [Determinou-se que] “se desse o dito partido [de organista] a Salvador José, de Oliveira de Azeméis, com o partido de vinte e quatro mil réis, atendendo a vir de fora e com a obrigação de ensinar o cantochão aos Padres e meninos do coro, e de ensinar o Órgão ao menino do coro João Tomás, por ter já alguma luz [...].” ASCMA 13, f.57.
Se o organista não cumpria as suas obrigações, seria multado, de acordo com as suas faltas:“E por serem muito reparáveis as faltas do órgão nas festas em que ele deve tocar e acompanhar, portanto faltando o organista às manhãs ou tardes dos dias de prima classe, por cada uma destas faltas apontará o P. Capelão Presidente em 400 [réis] cada falta. Nos dias de segundas classes e em que o Ofício é cantado pelo coro de Tércia por diante, por cada falta será apontado em 300 [réis] cada uma. Nos mais dias do ano será multado a 200 reis cada falta” [...]
Mas se fosse reincidente, ou, as faltas, mais graves, o caso era para despedimento: [...] “Da mesma forma foi determinado que, porquanto o organista Domingos Ferreira não desempenhava bem as suas obrigações, ele fosse despedido da sua ocupação e se cuidasse em quem o havia de substituir” [...]. ASCMA, nº 13, f.381 (1779, 29 Setembro).
4.4.- As obrigações
O organista devia tocar “a primeiras e segundas Vésperas, Laudes e Missa em todas as festividades em que no coro todo o Ofício for cantado [...], Como podem ocorrer mais algumas ocasiões de pulsar o órgão, extraordinariamente, de aviso do P. Capelão Presidente, virá tocar todas as vezes que para serviço da igreja assim for necessário” [...]
O regulamento indica detalhadamente os momentos e a forma como o organista deve tocar. Dessas indicações é de particular interesse destacar o seguinte: [No fim do Sanctus] “fica o órgão soando e tocando com muita modulação em todo o tempo da Elevação, no fim da qual volta o organista os registos do órgão, e os regentes e coro cantam [o] Benedictus” [...]
4.5.- O caso particular da Elevação
O repertório organístico inclui um significativo número de peças destinadas ao momento da Elevação, mais propriamente, entre o Sanctus e o Pater Noster (no tempo da missa em latim): “Tocata para a elevação” na Itália, “Tento de falsas” [dissonâncias] na Espanha, “Tocata para o levantar o Deus”, em Portugal, são alguns dos títulos utilizados.
A escrita destes trechos é geralmente caraterizada pela dissonância; na Itália também se usava o termo Toccata di durezze e ligature [dissonâncias e retardo ligado à nota anterior]. Qual a razão de ser deste tipo de escrita?
O efeito, de algum modo “doloroso”, da dissonância era a forma mais habitual e intuitiva de significar o sofrimento. Assim, o organista, tocando peças escritas ou improvisando, deveria traduzir neste momento, através da música, o que então se passava no altar: o sacrifício incruento (sem derramamento de sangue) da cruz.
Noutros regulamentos, faz-se a recomendação genérica de tocar dulciore et graviore sono [com uma sonoridade mais doce e grave, pesada]. Porém, o da Misericórdia é mais explícito, referindo-se à própria escrita musical –“com muita modulação”- apontando para um certo cromatismo, que nos remete, direta ou indiretamente, para a mesma simbologia do sofrimento.
4.6.- Um registo específico
O regulamento fala em “voltar os registos do órgão” antes e depois da Elevação; na verdade, ontem, como hoje, não se tocava de forma igual no acompanhamento do coro, no fim da missa e nas diferentes partes dos Ofícios. Para a Elevação, os órgãos tinham um registo com uma sonoridade particularmente apropriada: entre outros, “Voz humana”, “Flauta doce” ou, no caso da Misericórdia, “Flauta romana”.
Trata-se de um registo que, devido às suas medidas e à forma como está harmonizado, melhor se podia adequar à emoção intensa do ponto mais alto do Santo Sacrifício.
Por aqui se vê que os timbres do órgão tinham em conta, de facto, a sua funcionalidade na Liturgia.
5.- Finalmente, o restauro
Dissemos acima que o órgão, integrado na beleza do templo, é um bem duradouro, um apelo à perenidade, mercê da qualidade da sua construção. Assim foi entendido quando, na comemoração dos 500 anos da instituição, a Mesa Administrativa decidiu proceder ao seu restauro, desta vez segundo parâmetros rigorosos, eliminando alterações comprometedoras da sua traça histórica, pela mão experiente e sábia do Mestre Organeiro Dinarte Machado; o restauro da caixa foi feito in loco pela Dr.ª Liliana Cascais.
Foi uma decisão acertada, na antevisão de que este órgão, na sua longevidade, muito serviço tinha ainda a prestar à sociedade, ao culto e à cultura. A provar o vigor da sua juventude está o facto de, em 10 anos de regular utilização, tanto na Liturgia como em concertos, não ter sido preciso chamar o médico... Pequenos achaques sem gravidade foram sempre resolvidos pela organista titular, com a colaboração de outras pessoas que zelam pelo bem estar e bom serviço de uma obra de arte que tanto prezam.
Não queria terminar sem evocar a memória do nosso saudoso Professor Antoine Sibertin-Blanc – falecido há um ano – que fez o concerto de inauguração no dia 1 de novembro de 2003.
Conclusão
Resta-me apenas uma palavra de regozijo e felicitações, já que estamos em dia de aniversário:
Parabéns ao Sr. Provedor e Mesa Administrativa, extensivos a todos os membros da Confraria e Funcionários, pelo interesse na preservação de um dos órgãos históricos de referência em Portugal;
Parabéns ao R. P. Georgino, Capelão desta Igreja por, parafraseando a Constituição Apostólica Sacrossanctum Concilium, terem sempre em grande apreço o instrumento tradicional da Igreja Latina; recordo com especial saudade o P. Teixeira – capelão na altura do restauro – e D. António Marcelino, que nesta igreja celebrou a sua última eucaristia antes de partir;
Parabéns ao Coro e, sobretudo, ao Sr. Dr. Gamboa que, além de assegurar a dignidade e qualidade da música litúrgica nesta igreja, sempre demonstrou um permanente apreço pela presença do órgão e interesse pelas atividades nele realizadas na Liturgia e na cultura;
Parabéns à organista titular, Prof.ª Marília Canhoto Peres que, embora graciosamente, exerceu as suas funções nestes 10 anos com zelo pelo instrumento e dedicação à assembleia, para a qual teve o cuidado de preparar sempre um pequeno momento musical no fim da missa.
E para o órgão... um “ad multos anos!”...
Domingos Peixoto |