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Ourivesaria - Alfaias ao serviço do culto, atributos de figuração
As instituições, religiosas ou laicas, sempre procuraram para os ofícios da liturgia, objectos no metal mais nobre, o ouro, ou enobrecido, como a prata dourada, ou ainda prata simplesmente. Como os proventos financeiros nem sempre o permitiam, procu¬ravam-se sucedâneos. Do espólio em ourivesaria da Santa Casa, restaram poucas peças. Os três exemplares apresentados são de referência regional e nacional.
Ainda que o núcleo seja pequeno, três peças merecem um destaque especial pela sua beleza e qualidade. O conjunto eucarístico é constituído pelo cálice e pela patena, o resplendor de Cristo, Varão das Dores (ou Senhor da Pedra Fria) e a custódia, todos eles em prata e em prata dourada.
Não é a ourivesaria um dos núcleos mais representativos do acervo da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro, certamente porque se foi perdendo ao longo da sua existência. Os inventários são escassos e a toada lacónica das suas descrições não nos permite identificar pormenores das peças. Mas as que vulgarmente neles vêm referidas são tocheiros e castiçais em folha-de-flandres ou latão, resplendores, alguns deles separados das imagens a que pertenciam.
Naturalmente, a não ser que se tratasse de uma doação de espécime mais antigo, as peças de ourivesaria seriam dos séculos XVI e seguintes.
O ofício de ourives (de ouro ou prata, os prateiros), dentro de uma sociedade que se agarrava a uma estratificação rígida, constituía um como que estrato oficinal «aristocrático» dentro dos mesteres, ocupando os lugares da frente nas procissões, onde cada ofício se posicionava segundo uma ordem que em muito tinha a ver com a importância da profissão. A nobreza do material, a exigência económica para o mestre que à arte se dedicava, a precisão, delicadeza e perícia do próprio trabalho faziam dela uma arte nobre. Por isso, dela era excluído quem não tivesse pureza de sangue, como mouros, judeus, mulatos, filhos de homens vis.
Os casamentos entre pares, os laços de apadrinhamento, as vinculações de aprendizagem, a participação em contratos assumindo fianças, procurações estreitavam e musculavam a coesão interna, cerrando, de forma quase intransponível, este círculo oficinal.
Fechado não era, contudo, o seu raio de intervenção, deslocando-se frequentemente os ourives de umas zonas para as outras, consoante a sua notoriedade ou a falta de executores do ofício em determinadas áreas.
As dificuldades económicas que penetraram todo o século XVII, decoro rentes da perda e retorno da independência nacional, reflectiram-se na diminuição de ourives, como é natural num trabalho muito exigente em termos de custos, não só para as oficinas, como para o cliente. No entanto, a encomenda de ourivesaria religiosa sofreu notório incremento, contextualizada pela disciplinada, persistente e economicamente bem suportada orientação de uma Igreja Católica vinculada a Trento.
A escassez de documentos, tanto no arquivo da Santa Casa como no distrital, relativos ao trabalho de ourives, permite dizer que não foi esta a vocação de ofício da vila, mas um ou outro sinal surge e com grande vigor. É o que acontece com o ourives F, A (Aveiro) inscrito em alfaias de fino lavor e pujança decorativa. São dele as custódias do Museu Nacional de Machado de Castro (MNMC 6135 0-79) e a desta Misericórdia. O tipo de custódia a que nos referimos caracteriza-se pela forma circular do seu hostiário, pela glória radial de grande efeito. Este modelo aproxima-se do da custódia de Ílhavo, ainda que seja mais tardio, dos finais do século XVII. Aliás, ele será predominante no século XVIII.
As custódias da Misericórdia e do MNMC são duas magníficas mostras da ourivesaria nacional e, ainda que em Aveiro não tenha sido trabalho oficinal marcante, este mestre basta para que a esta arte aveirense se tenha de fazer referência. O modelo enquadra-se perfeitamente no contexto da sua época dominado pela força da encenação, da cenografia canalizadas para a emoção. Todavia, ainda remete para sobriedade pós-Trento.
O efeito da radiação esplendorosa, definida pela alternância dos raios direitos e ondeados implantados em moldura com ornamentação relevada, imprime um forte ritmo circular ao conjunto e «projecta», rumo às alturas, a pequena escultura de Cristo Ressuscitado. Este artifício que «trabalha» o olho humano, movimenta a sensação e vinca o simbólico é, de facto, notável. A fulgurância deste corpo vai-se esvaindo pela elegância da haste até ao cinzelado erudito e de fino recorte da base.
A custódia era a peça fundamental na cerimónia de exposição do Santíssimo Sacramento para abençoar ou para sair em procissões.
A adaptação da tipologia do relicário tem a ver com o sentido da veneração a um «eleito» por Deus, seja a hóstia consagrada, materialização sacramental do Salvador, seja um elemento que supostamente terá pertencido a um santo e o consubstancia ali.
O conjunto eucarístico, constituído pelo cálice e pela patena, é uma das principais alfaias na celebração litúrgica, sendo neles que o pão e o vinho se transubstanciam no Corpo e Sangue de Cristo. Por isso, com eles se tiveram cuidados especiais, particularmente no que ao seu uso e regulamentação dizia respeito. Naturalmente também se submeteram às tendências e estéticas que entretanto iam correndo, aos «ventos» que vinham de fora.
Próxima desta tipologia está a dos chamados vasos de comunhão, normalmente desornamentados, «vivendo apenas do equilíbrio das proporções» (catálogo, 1992). Este tipo de cálice, o «vazo de lavatorio de comunhão» (Tesouros de Arte…, 2003) era de maiores dimensões do que aqueles que se utilizavam na consagração do vinho. O seu uso, frequente nos séculos XVII e XVIII, tinha a ver com necessidade de os fiéis deglutirem mais facilmente as hóstias rece¬bidas em comunhão e evitar que os fragmentos permanecessem na boca.
Os resplendores são a forma mais sintética das glórias solares das custódias e seguem a forma do crescente lunar e do astro rei. Sol, Lua, simbolismo que se deverá ter sempre presente. A sua aplicação distingue os eleitos por Deus. Com a proliferação de imagens que marca, como já se referiu, o período que se segue a Trento, eles vão acompanhá-las imitando a luz que irradia dos escolhidos.
Com o passar dos tempos, foram das peças que ficaram avulsas em maior número, possivelmente porque muitas vezes as esculturas para que se destinavam se deterioraram, sobrevivendo eles pela durabilidade da matéria. Entre os resplendores da Misericórdia, distingue-se pela sua qualidade e beleza o resplendor, em prata, do sempre designado por Ecce Homo, aqui reconhecido como Varão das Dores, Senhor da Amarração ou Senhor da Pedra Fria. Trata-se de um belo exemplar com radiação lanceolada e de fino recorte, encaixada em moldura relevada com motivos vegeta listas.
Última actualização 23-08-19  Política de Privacidade |