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Têxteis - Diversidade, delicadeza e arte
A colecção é diversificada, maioritariamente composta por paramentos, afins e indumentária para imagens devocionais. Os panos de ornamentação normal ou sazonal conferiam maior solenidade ao cerimonial, no entanto deixaram escassos testemunhos. As cores usadas submetiam-se a simbologia própria, nunca subvertida. Se nem sempre a indumentária constituiu um forte elemento ritualista, a verdade é que ela se encontra, desde há séculos, vinculada e profundamente implicada na composição do cerimonial religioso, cujos ofícios se condimentaram e condimentam com uma complexidade de discurso de emoção em que são fundamentais os sons, os cheiros, as cores e os efeitos. Entre estes, pontuam as indumentárias de imagens, de celebrantes, de acólitos e de membros de uma qualquer confraria. É no império romano que encontramos a génese de algumas das peças usadas nas cerimónias litúrgicas. A paenula romana é inspiração para a casula. Como era uma peça de protecção contra o frio, contra o vento e contra a chuva, usada durante as viagens, concebeu-se o mais fechada possível, em couro ou em lã. Em forma de saco ou de sino, apenas rasgada para a entrada da cabeça, assumia-se como uma pequena casa protectora para o corpo vergastado pela intempérie. No século VI caiu em desuso junto do povo, mas persistiu e enriqueceu-se entre o clero. A mais-valia ornamental e o consequente encarecimento fizeram com que se tornasse proibitiva para os membros da hierarquia inferior, reservando-se a sacerdotes e bispos. A casula é composta por um corpo e pelos sebastos. Normalmente um galão assinala o meio dela, na frente e nas costas. A dalmática e o pluvial receberam igualmente o seu sentido no vestuário usado no império romano. A primeira, de origem oriental, era a veste dos escravos da Dalmácia, absorvida, cerca do século 11, pelos jovens romanos. Trata-se de uma peça ampla e com mangas abertas. Missas solenes, bênçãos, procissões, Papa, cardeais e bispos «reclamam-na». O pluvial, como o nome indica, ligava-se semanticamente às condições climatéricas, particularmente de queda de chuva. Com forma semicircular, apresenta abertura à frente, a qual se cerra por firmal de pano com ganchos, muitas vezes valorizado com adereço metálico. As partes laterais são recobertas com se bastos cosidos longitudinalmente. A sua denominação implica a existência de um capuz de protecção, progressivamente minimalizado até à forma de escudete. À missa não era apropriado, antes a demais solenidades como procissões e bênçãos. Como ara do sacrifício e como centro sublime do cerimonial litúrgico, o altar era normalmente enriquecido com frontais de damasco, de cetim profusamente bordados a seda e a ouro. Realçando-se sobre a toalha, o frontal subdivide-se em frontaleira e painéis centrais compostos por sebastos na vertical, elementos marcados por aplicação de galão. O uso das cores obedecia a regras precisas ligadas ao espírito da celebração em causa. O preto e o roxo são facilmente identificados com cerimoniais de defuntos e com os da Paixão de Cristo. É no Advento, entre a Septuagésima e o sábado de Aleluia, no 4.º domingo da Quaresma, em festas de santos inocentes, que os vemos como vestes litúrgicas. O branco, tido como a cor perfeita, a que se desdobra em todas as outras, a cor da luz, da fé esclarecida, da inocência, da pureza é usado pelo Papa, sendo reservado igualmente às celebrações dedicadas a virgens e confessores. O vermelho liga-se ao sacrifício, ao amor inflamado a Deus, portanto ao sangue, ao fogo ardente. Por isso, entra nos actos dedicados a mártires e apóstolos. O verde, como outras cores e tonalidades hoje já utilizadas percorrem a indumentária do cerimonial litúrgico. Durante os séculos XVII e XVIII, o preenchimento ornamental intensifica-se, torna-se mais complexo em grande parte deste vestuário com recurso ao elemento exótico. Progressivamente, acompanhando o gosto estético da época, foi-se simplificando e naturalmente adaptando aos proventos económicos. Como suporte têxtil, a primazia tem pertencido aos damascos e cetins. O veludo, muito menos frequente, foi igualmente usado. Os brocados e os brocatéis enobrecidos com bordado a ouro ou a prata, conferiram às peças carácter de verdadeiras obras de arte. Na colecção da Santa Casa não encontramos exemplares destes, certamente porque razões económicas assim o determinaram. O damasco, o galão e o veludo, este especialmente para as vestes das imagens (Manto de Cristo e Manto da Virgem da Soledade), são os materiais mais frequentes. Igualmente eram usados para outras peças que incluíam o elemento têxtil como manípulos, estolas, mangas de cruz, pálios, baldaquinos processionais, véus de sacrário, umbelas processionais e outros. De algodão, embelezadas com rendas, rendinhas que «bebiam» os seus motivos na liturgia, alvas, amitos, sobrepelizes, blusas, saiotes vestiam sacerdotes e imagens. No capítulo XIV do Compromisso, estabelece-se que, na Irmandade da Misericórdia, existirão a bandeira da mesma, designada por pendão, a cruz alçada, as arcas para guardar as roupas dos pobres, as caixas de esmolas, os caixões ou «andas» para os funerais, diversos livros de registos e ainda os saios, ou seja as opas em tecido castanho ou preto mais grosso ou mais fino, consoante a época do ano. Na verdade, o acervo desta Misericórdia conta com um lote substancial desta indumentária que distinguia e distingue os confrades.
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