|
|
|
|
Mobiliário - Guardar e dar Conforto
A pequena colecção da Santa Casa tem, como referência, o bufete e as cadeiras de sola gravada para as reuniões da Mesa, uma arca decorada, a «burra» e o arcaz da sacristia brevemente documentado, uma vara do provedor, ou, mais rigorosamente, de mesário. Em Portugal, como aliás aconteceu em Espanha, o móvel de corte e o aristocrático eram, de uma maneira geral, importados, impondo-se aos modelos nacionais pela actualidade, pela inovação, pela qualidade e, por isso, objecto de cópia pelos artistas portugueses. No entanto, essa absorção estética e técnica resultava em peças onde era evidente a ingenuidade interpretativa, reflectida em formas atarracadas, sem a elegância dos seus modelos, e decoração muitas vezes exagerada, sufocando a estrutura com a capa do ornamento porque este é imediatamente captado e entendido como manifestação de beleza. O conceito estético perdia-se então. O móvel da burguesia é, de alguma forma, a continuação de modelos renascentistas, modificados em detalhes, por influência dos novos estilos, suprindo-se a harmonia das proporções com grande originalidade e imaginação. Entre o mobiliário popular dominam as linhas muito simples, a ingenuidade interpretativa. Em Portugal, foram duas as grandes influências sentidas, a da Inglaterra e a de além-mar, particularmente a oriental. A interpretação de influências estrangeiras e gostos próprios resultou numa produção com características muito próprias, que caracterizam o chamado estilo português, marcado por torneados de grandes discos e os opostos estrangulamentos, pelas molduras de perfil ondulado. Como madeiras usaram-se as importadas e as coloniais. Os móveis, de uma forma geral, são robustos e escuros, recorrendo-se muito ao pau-santo, ao ébano e ao castanho. As arcas, mobiliário dos mais recuados, tendo servido mesmo como leito, constituíam o móvel mais necessário para o arranjo da casa. Nelas se guardavam cereais, bragais, vestuário, loiças, entre outros. Esteticamente, a arca é um móvel relativamente despojado, sem molduras, mas com malhetes de ligação normalmente muito cuidados. Outra característica das arcas é a igual medida da tampo e do seu exterior, sem qualquer rebordo, para permitir um perfeito funcionamento dos gonzos. A esmagadora maioria possuía um soco ou aro para preservação do móvel em relação à humidade vinda do pavimento. O formato é no sentido do comprimento, frequentemente multiplicada a altura em duas vezes e meia. De secção pseudoquadrangular ou rectangular, podiam ou não ter motivos ornamentais, normalmente nas frentes do corpo, do rebordo, do tampo e do soco. A decoração era feita, na generalidade, por incisão com o preenchimento de massa escurecida. Raramente aparecia a pirogravura. Como ferragens, são as asas das ilhargas, os gonzos e os ferrolhos as mais vulgares. Quadrúpedes exóticos, como dragões, outros animais fabulosos, envoltos em folhas e em forma de «S», e aves são motivos recorrentes durante o século XVI. A arca, que hoje integra o espólio da Misericórdia de Aveiro, fazia parte do recheio do Solar de Sarrazola, imóvel que foi doado, em 2000, pela benemérita Maria da Glória Azevedo Simões. Um outro modelo é a arca cintada com ferros, cofres-fortes de então, mais tarde denominadas «burras». A sua específica funcionalidade exigia um complexo sistema de fechaduras que garantiam a segurança contra roubos dos valores lá acautelados. A da Misericórdia integra esta tipologia. O Livro do dinheiro e gastos da obra da Casa Nova da Misericórdia (fundo documental da Misericórdia), onde se registou o que à obra do retábulo se refere, dá notícia de quem fez o arcaz da sacristia e de despesas com ele relacionadas. Foi Francisco da Rosa, marceneiro e irmão da Santa Casa, o mestre que o fez, ganhando cento e sessenta réis por dia. Aliás, a ele incumbiram a compra dos materiais necessários ao retábulo e, como «homem da casa», certamente defenderia o orçamento da Irmandade. O arcaz, nessa época, e referimo-nos aos anos de 1654-1655, quando da fábrica do retábulo e acabamento da sacristia, era designado por «caixões». De facto, ele é constituído por grandes gavetões capazes de guardar toda a paramentaria. Foram gastos montantes com tábuas e pregaria, sabendo-se que a madeira usada foi o angelim cortado em «chaprões» (tabuões), a qual importou em novecentos réis. O angelim provém da jaqueira brava (Antocarpus hirsuta Lamk) e é originária da índia. Aparece, por vezes, referida como «angelim de pedra» e foi muito utilizada, em Portugal, em obra de marcenaria. Entre o mobiliário de referência da Santa Casa, contam-se as chamadas cadeiras portuguesas, da segunda metade do século XVII, rasas e em sola gravada: doze sem braços e uma com eles, certamente destinada ao provedor. O trabalho do couro gravado é realçado pelo uso de pregaria amarela que assume também o carácter de elemento de segurança. Se bem que a pele animal, tratada e preparada para ser imputrescível pela acção de substâncias várias como o sumagre, as cascas de acácia, o carvalho, ricas em tanino, tenha acompanhado a vida do Homem, em Portugal, a presença muçulmana incentivou e inovou a produção de couros artísticos. A sumptuosidade, o requinte, os motivos ficaram pela Península e deram corpo a uma arte muito peculiar. Demolhada, raspada e seca à sombra, a pele necessitava, para adquirir a elasticidade conveniente e para não se tornar quebradiça, de ser engordurada com óleos próprios. Todos os couros decorados eram curtidos «a vegetal», ou seja por acção das espécies vegetais acima referidas, pois só estes aceitam métodos decorativos, contrariamente ao curtimento a crómio, no qual só é possível o tingimento e a prensagem. O desenho era previamente traçado na pele húmida, transferindo-se do original feito em papel com um estilete. Lâminas, cinzéis de ponta não cortante, martelos «esculpiam» o delicado e paciente trabalho ornamental do correeiro. Fazendo conjunto com as cadeiras, um bufete, igualmente bas¬tante comum na época entre o mobiliário civil, com os característicos torneados e molduras ondeadas. Vários bancos, identificados como propriedade da Misericórdia, com apoios recortados em arco gótico-mudéjar serviam de assento e de suporte para as bandeiras da Irmandade. Em talha gorda dourada, duas credências barrocas apoiam as celebrações no espaço da capela-mor, encostadas à pintura em trompe l'oeil. Ainda nesta colecção é de referência obrigatória a única vara que sobreviveu ao passar do tempo e que pertenceria ao leque dos treze paus/insígnia da Santa Casa. À complexidade da componente sociológica, tanto na sua feição interna, como na sua projecção externa, opõe-se a simplicidade e eficácia da organização base das Misericórdias. O Compromisso previa «hua jrmandade de cento homes» responsáveis pela eleição do corpo directivo e pela manutenção da estrutura organizacional permanente, a operar de uma forma suficientemente eficaz para concretizar os objectivos da Misericórdia. Pertencia, pois a um grupo restrito, formado pelo provedor e doze mesários a tarefa de dirigir a actividade assistência levada a cabo pela Irmandade e promover a representação geral da confraria na vivência sócio-política. O documento matriz da organização das Misericórdias refere também que «pelo trabalho que levarem os ditos oficiaes non levaram premio algum temporal somente esperam premio e galardam de deos todo poderoso a que servem», sabendo-se, todavia, que a integração na Mesa implicava e implica reconhecido prestígio perante a comunidade. O provedor é o principal oficial entre os confrades e a ele cabe a responsabilidade da distribuição dos cargos, que deve obrigar a exercer de uma forma funcional, conforme ao estatuído no Compromisso. De facto, a qualidade e desmultiplicação da missão da Irmandade assenta largamente na linha de orientações do provedor, que acaba por centrar nas suas mãos um poder importante, ainda que, segundo a matriz fundadora, cerceado em matéria económica, necessitando do acordo dos doze da Mesa. Naturalmente, a este núcleo administrador agregam-se algumas distinções para além da que acima se referiu. Cabia-lhes o lugar principal nos actos públicos e nos privados. Na casa do despacho, o mobiliário destacado encontrava-se contabilizado para treze elementos. Na igreja da Misericórdia de Aveiro, um cadeiral, dourado e com uma conformação particularmente trabalhada, permitia e permite que, durante as cerimónias litúrgicas, aquele grupo decisor tenha um destaque posicional e isolado por uma teia de balaústres.
|
|
|