Esta é uma das colecções maiores do acervo da Santa Casa, não pelo número de peças, mas pela superior qualidade de algumas delas como obras de arte e como objecto de grande devoção pelos aveirenses.
O valor do espólio da Santa Casa é fortemente devedor do núcleo de escultura, não devidamente destacado pela sua valia estética, pela qualidade da técnica de execução, mas mais como imagens de devoção. Três, entre as peças, têm ficado cativas de grande crença, tornando-as ícones do fervor religioso ao longo da vida da instituição e, por isso, objecto de referência. São três as imagens de Cristo especialmente invocadas, todas elas esculturas que merecem destaque pela sua valia estética, pelo trabalho de superior qualidade e pela origem estrangeira. Aquela que sempre aparece designada por
Ecce Homo, mesmo na documentação, encontra-se hoje no nicho de um dos retábulos laterais do corpo da igreja, o do lado da Epístola. Contudo, também foi colocado no que com aquele faz
pendant, do lado do Evangelho. A proveniência desta escultura é desconhecida, ainda que a tradição a ligue a Inglaterra: se esta atribuição se deveu a passagem de testemunho, ao carácter menos nacional do trabalho ou às feições nórdicas do próprio Cristo não sabemos. Pinho Queimado, em 1687, para além de referências encomiásticas e talvez fantasistas, faz outras duas que correspondem ao que é verificável e ao que se encontra registado na memória documental. Diz ele que a imagem serviu de modelo a muitas outras e que a grande devoção de que é alvo se deve aos muitos milagres que se lhe atribuem. Na verdade, na exposição
Um Homem para os outros, promovida pela Diocese de Aveiro, esteve patente um Cristo da Amarração em alabastro policromado, pertencente a uma igreja paroquial da cidade. É referido na legenda que a figura do Flagelado se encontra num banco de características invulgares. De acordo com a iconografia desta representação, que tem origem no Norte da Europa, não existe banco, mas sim uma pedra sobre a qual Cristo vive a proximidade do momento sublime da Sua morte e da salvação do Homem. Sabendo que o alabastro foi matéria usada no Norte, mormente em Inglaterra, e que a iconografia é pouco comum, a que por proximidade se designou como Ecce Homo, pode, com suportes menos fantasiosos, ser integrada em produção nórdica. Nenhuma das duas esculturas terá sido modelo da outra, possivelmente entradas em Portugal em época próxima, mas esta semelhança e a imponência do Cristo da Misericórdia tê-lo-ão remetido para a condição de representação imitada. Todavia, a evidência mostra que foi replicada na representação pintada que se encontra na casa do despacho. Sabemos que na catedral de Burgos, Espanha, se guarda uma escultura muito semelhante à da Misericórdia de Aveiro, designada por Cristo, Varão das Dores, sobre o Calvário, obra de C. de 1500, que aparece documentada apenas nas primeiras décadas do século XVII, quando o bispo Fernando de Acebedo introduziu, na recém-formada capela de São Tomás de Canterbury, o culto da imagem do chamado
Santo Ecce Homo, que afinal era o Cristo, Varão das Dores. Como em Aveiro, a fama e devoção da imagem milagrosa foi-se alastrando e consolidando. Exemplares semelhantes podem encontrar-se na igreja de São Filipe e Santiago, em Saragoça, no convento de Santo António, em Vitória, igualmente em Espanha.
Esta variante iconográfica não foi muito cultivada na Península e é diferente da do Ecce Homo. Cristo, pensativo, melancólico ou sofredor, consoante a imagem, espera a crucificação,
Christus in elend (Cristo em aflição) ou Cristo sobre a pedra fria, como era designado também nos Países Baixos, não vem referido em nenhum dos Evangelhos. Terá sido o Norte da Alemanha a zona de origem deste tipo de representação, depois alastrada à Flandres, França, Espanha e Portugal. Muitas imagens extrapolaram as Sagradas Escrituras porque tinham de servir determinadas intenções de incremento devocional como acontece com esta representação de Cristo: alimentava a espiritualidade contemplativa, interiorizada, profundamente sentida e tão divulgada durante o medievo final.
Iconograficamente há uma representação muito próxima desta que se designa por Senhor da Paciência. As referências documentais, encontradas no arquivo desta Misericórdia, são várias e aparecem logo desde 1626, podendo resumir-se à invocação do designado por
Ecce Homo para os momentos de peste, «tromentas, e enchentes de agoas» e «tempo tão feresco [ou] havia dous meses», seguindo em procissão até à igreja do Carmo, em Sá. A propósito da força miraculosa da imagem, Marques Gomes (1875) lembra um «milagre» ocorrido com um tal Manuel Pinho Vinagre, contagiado por epidemia de cólera, que teria apelado à intercepção divina quando da passagem da imagem frente a sua casa, conseguindo sobreviver à pestilência. Esta continuada movimentação explica as duas pegas que tem de cada lado da «pedra».
Em 1661, a Mesa toma uma decisão curiosa, reveladora de uma certa análise da psicologia devocional. Entendeu-se pôr em recato a imagem, impondo, pelo afastamento do contacto directo, um maior fervor.
Ainda em documento de 1711, se menciona a indulgência que é conce¬dida a «
todas as pessoas que postas de joelhos diante da dita imagem dularada [idolatrada] rezarem um pai nosso com uma ave Maria pela exaltação da fé; estripação [sic] das exéquias; e pax e concordia entre os principais cristãos».
Um outro exemplar de grande devoção é o
Senhor dos Esquecidos, imagem completada com a pintura da Virgem e de São João, em 1968, como o provam fotografias anteriores, onde estas figuras não existem. Colocada no nicho sobre o arco cruzeiro, não possibilita a sua visualização de perto, privando, desta forma, a avaliação de uma peça que nos surpreende pela sua grande qualidade escultórica.
Na verdade, centro igualmente de grande devoção ainda não devidamente explicada, refere-se a ela o Padre Domingos Rebelo (2000) nestes termos: «os momentos de esquecimento são sempre de angústia e de isolamento, quer sejam provocados por perda de memória, quer por abandono, Deus nunca nos esquece, mas os homens podem esquecer os irmãos». Na Misericórdia, esta devoção faz todo o sentido, uma vez que aqui se cuida dos que foram esquecidos pela sorte, pelo apoio dos homens. Jesus tem como atributo Senhor porque detém o senhorio sobre o discurso bíblico, sobre a oração do crente, sobre a imagem de um Deus inacessível, senho¬rio da diversidade de formas e perspectivas, senhorio de toda a súplica, senhorio de todos os senhorios humanos. No Deuteronómio (Dt:32,18), no Cântico de Moisés, revela-se outra perspectiva do esquecimento, a do Homem insensato para com o seu Deus: «Desprezas o Rochedo que te gerou, e esqueces o deus que te deu o ser».
A nossa ligação ao Oriente e a miscigenação das culturas portuguesa e oriental originaram uma vastíssima produção de imagens onde a segunda daquelas era e é bem visível, particularmente na preciosa matéria que é o marfim. Inúmeros Crucificados, Virgens, Santos, Santas Parentelas, Meninos invadiram conventos, igrejas e lares. Algumas destas esculturas distinguem-se pela qualidade da execução, pela raridade, mas todas pelo valor do material. Entre estes, encontra-se outra das imagens veneradas na Santa Casa. Trata-se do
Senhor da índia ou Senhor do Hospital. Recuperada a sua anterior dignidade quando Amaro Neves a identificou como sendo de marfim, foi objecto de estudo particular e de exposição. Também a ela se pedia a intercepção para as calamidades e desesperos, saindo nas procissões de desagravo até à Nossa Senhora de Sá.
É Pinho Queimado (1687) que nos revela alguns dados sobre a proveniência desta imagem. Diz ele que terá sido Diogo de Oliveira Barreto, capitão em Malaca, que a mandou para Aveiro. Este irmão de maior condição foi membro activo entre 1580 e 1607 não só como mesário, mas igualmente como provedor. Amaro Neves (1998) presta alguns esclarecimentos sobre esta figura, que se sabe ter sido cavaleiro da Casa d'El-Rei. Vários documentos a ele se referem, mas sem acrescentarem muito às informações conhecidas. No entanto, por eles se ficou a saber que, em meados de Seiscentos, a Mesa resolveu tornar a sala do despacho seu espaço de veneração, permitindo à Irmandade um culto mais intimista. O Breve de Clemente XIV, conseguido por intermédio do bispo, em 1773, autorizou a celebração de missa no altar a Ele dedicado, na casa do despacho e hospital da Santa Casa, neste último espaço para maior comodidade dos enfermos. O inventário de 1851 registou que a cruz desta imagem era em pau-preto e os cravos, dístico e resplendor em prata, elementos condignos a uma tal peça. Curiosamente, Marques Gomes não lhe encontrou qualquer valia artís¬tica ou material, certamente influenciou a opinião de Alberto Souto e Nogueira Gonçalves, que a não referiu no Inventário Artistico de Portugal, Distrito de Aveiro - Zona Sul. Felizmente para o espólio da Santa Casa e também para o nacional é uma peça de valia incontornável.
A imagem de
Imaculada Conceição, em madeira, designada na documentação por Senhora, tem proveniência e data de incorporação no património da Misericórdia desconhecidas. No entanto, já o integrava em 1616, de acordo com o teor do inventário desse ano. Sofreu as vicissitudes das várias mudanças de posição, havendo uma fotografia, de meados do século XX, que a revela em posição algo insólita: no vão da janela central e cega da capela-mor, colocação que terá exigido elementos de suspensão não recomendáveis para a sua conservação. Hoje, encontra-se exposta na capela-retabular do corpo da igreja, do lado do Evangelho.
Apesar de não ter sido objecto de fervor semelhante à devoção cristológica atrás referida, teve irmandade própria, possivelmente já antes de meados do século XVII, datando de 1708 o único exemplar de livro de assento dos irmãos dela, onde se diz ter tido aquela congregação de fiéis lugar na Santa Casa da Misericórdia.
No exterior, mais propriamente no nicho central da fachada, pode ver-se a imagem de uma outra
Senhora da Conceição, em pedra de Ançã e já da segunda metade do século XVII (1654). A documentação comprova-o referindo o pagamento que se fez a Manuel de Oliveira, escultor, o qual importou de «feitio» em 4 500 réis, quantia reveladora de nome certamente conceituado. Sabemos igualmente que a pedra para ela importou em 900 réis.
De pedra são igualmente as esculturas de
São Pedro e de
São Paulo que se encontram nos nichos inferiores da fachada retabular. Um documento de 1867 registou que estas imagens foram cedidas pela paróquia de Nossa Senhora da Glória à Misericórdia por 12 000 réis, de forma a preencherem os referidos nichos que se encontravam vazios, talvez porque os proventos ainda não tivessem dado para o pagamento das imagens necessárias. Frei Félix Mendes dos Ramos, em 1760-1775, refere as esculturas de «pedra inteiras, e perfeitas» de S. Pedro e de S. Paulo, as quais juntamente com Santo André estariam colocadas em retábulo dourado na primeira capela, no corpo da matriz de S. Miguel, do lado da Epístola. Sabendo-se que a igreja de S. Miguel foi demolida em 1835 e que o seu recheio terá sido distribuído e colocado à guarda de vários templos de Aveiro, não será destituído de lógica pensar que essas poderão ser as imagens que aqui se referem.
Estas esculturas têm merecido uma vaguíssima e injusta atenção em todos os estudos sobre a Misericórdia, talvez pelo protagonismo da fachada. Todavia, uma análise mais aprofundada revela uma proximidade notória com a oficina de Hodart, constituindo a Estátua Orante de D. Duarte de Lemos (1535), na igreja matriz da Trofa (Águeda), um bom exemplo para cotejo das esculturas de Aveiro. Certas soluções como a pupila perfurada, o meneamento, ainda que ligeiro do S. Paulo, poderão remeter estas peças para o proto-maneirismo.
Os textos documentais revelam-nos mais elementos sobre outras esculturas que integram o acervo da Santa Casa. João Fernandes, conhecido escultor de Viseu, fez para o retábulo-mor a figura da
Caridade, recebendo diariamente 300 réis. Sabemos que lhe pagaram por ela 6 000 réis, portanto mais do que recebeu Manuel de Oliveira pela Senhora da Conceição da fachada. Os documentos nada nos dizem sobre a autoria da imagem da
Esperança, contudo, a similitude entre as duas peças leva-nos a atribuir ambas, com segurança, a João Fernandes. Destinavam-se a nichos do retábulo que hoje se encontram preenchidos com telas pintadas. Sabemos que lhe foi encomendada também a imagem de uma Senhora, mas dela não restou vestígio. Os pagamentos referem ainda a obra dos Evangelhos, não se sabendo se correspondem às esculturinhas dos Evangelistas (
S. João,
S. Lucas,
S. Marcos,
S. Mateus) que ainda existem.
O irmão de maior condição e mesário, Jorge Botelho d' Eça, mandou fazer uma imagem de
S. Caetano a quem era particularmente devoto. Pediu, em 29 de Abril de 1689, licença à mesa para colocar a imagem no altar-mor da igreja, no lado do Evangelho. Aquela aí devia permanecer enquanto não fosse construída a ermida que erigiria em sua intenção. O desfecho é desconhecido, mas a imagem pertence ainda hoje ao espólio da Santa Casa. Num dos livros do arquivo desta Santa Casa, (Livro das oferendas e despesas da festa de S. Caetano, 1689-1724) fez-se o registo, de 1689 a 1698, dos bens e ofertas remetidos àquele santo. Registaram-se igualmente, em diversos anos, despesas com as festividades que honravam este culto, sem dúvida com o seu ponto alto logo a seguir à dádiva de Botelho d'Eça.
Os objectos registados são, em assinalável quantidade, corações em ouro «de fina grama», mas também aparecem jóias várias, peças de burel e de linho, tafetá e «milaneza». Em 1691, com uma «garganta» em prata e outra joalharia, mandaram fazer um Cristo para a cruz do santo. Entre os devotos, lançou-se o nome de José Ribeiro, ourives de Aveiro.
Muitas outras esculturas integram o património da Misericórdia de Aveiro, no entanto nem todas serão referidas. Destacaremos um
São Brás, em barro, certamente obra regional, um
Cristo morto, e dois
relicários.