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A colecção de cerâmica da Santa Casa, já muito incompleta, até pelas características do próprio material, tem como núcleos fortes o revestimento azulejar da casa do despacho, da igreja e da sacristia e o de cerâmica arqueológica, incorporado no acervo da Misericórdia, possivelmente na década de oitenta do século XX, por razões que se prendem com a sensibilidade de alguém que entendeu melhor acautelar a sobrevivência dos achados.
Em Portugal, os depósitos argilíferos mostraram um material de qualidade superior. João Baptista de Castro (1742) referiu-o e Charles Lepierre (1899) também, relevando, entre outros, os da região de Aveiro.
Aqueles localizam-se especialmente nas orlas sedimentares, mais concentradas nos distritos de Aveiro, Coimbra e Leiria, sendo, na sua origem, de estrutura tabular ou lenticular, marinha, lagunar, lacustre ou fluvial. Esta circunstância natural favoreceu o trabalho da olaria referenciado por vários autores, nomeadamente Marques Gomes (1895), Joaquim de Vasconcelos (1895), José Queirós (1948), David Cristo (1984), Nelson Correia Borges (1986), Sérgio Guimarães Andrade (1989), Amaro Neves (1992). Não restam dúvidas sobre a importância da actividade das olarias no contexto socioeconómico de Aveiro, nem sobre a sua expansão dentro da malha urbana e seu perímetro. A produção cerâmica expandiu-se, encontrando-se, em documentação do século XV, a certificação da sua existência. Numa relação das propriedades que eram do mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, é mencionada, no ano de 1431, a «fonte da arada dos oleiros» e a imposição feita a estes artesãos de «em cada domingo se cozerem três panelas».
A escritura feita pela prioresa do Convento de Jesus a Jorge Afonso, aquando da compra de terrenos, em Dezembro de 1487, faz menção daquela actividade. A toponímia, por sua vez, tem sido pródiga na demonstração expressa da projecção que a actividade detinha: Torre dos Oleiros, Rua dos Oleiros, Travessa da Olaria, Bairro das Olarias. Este, localizado, segundo a documentação, na zona limitada pela Fonte Nova e pela Rua do Rato até à Rua de S. Martinho, era o quinto entre os bairros notados do burgo aveirense, nas proximidades dos Convento de S. Domingos. Sobreviveu até ao século passado e veio a dar origem ao designado comummente por «Bairro do Liceu».
De quase tudo se produziu em Aveiro, sendo confirmado o grande fluxo de telha e ladrilho produzidos para fora.
A pacificação política da Regeneração propiciou o incremento da industrialização, entretanto já montada em alguns estados europeus, sobretudo a partir do último terço do século XIX; esta acabaria por «matar» a produção cerâmica artesanal em Aveiro, dando lugar ao aparecimento de unidades fabris que marcaram e marcam uma presença incontornável no panorama nacional e internacional. O relatório de Francisco Ressano Garcia, de 1897, dava Aveiro como o segundo distrito em número de fábricas: dezassete unidades menores com um efectivo de 545 pessoas, a par das grandes unidades da área, as fábricas da Vista Alegre e a da Fonte Nova.
Esta última, foi criada em 1882, junto ao Canal do Côjo, por três irmãos da família Melo Guimarães, que perceberam a importância de preencher o espaço de anteriores núcleos produtivos, como a fábrica do Côjo. A dinâmica e inovação desta fábrica muito cedo tiveram projecção. logo no ano seguinte, em 1883, esteve a produção daquela unidade fabril representada na exposição-feira realizada no Palácio de Cristal, no Porto, prenúncio de uma qualidade que iria ser referência nacional e internacional, incluindo o Brasil.
Nomes como Joaquim Chuva, Joaquim de Magalhães, José da Silva, Maria do Cardal lemos, João Aleluia deixaram expressar o seu valor artístico na produção da fábrica que, para além de peças utilitárias, ornamentou muitos espaços com azulejos artísticos, onde a cenografia, que modelou o Rococó, está muito presente. A estampilhagem foi uma das técnicas da produção da Fonte Nova e é exactamente nela que se incluíram uma peça avulsa, a azul e branco, e o revestimento da fachada.
Paralelamente, porque eram necessários artistas bem preparados, foi criada, em Aveiro, a Escola de Desenho Industrial, em 1893, e Silva Rocha tornou-se o seu principal responsável. As vicissitudes da fábrica, que implicaram o seu fecho e reabertura num curto espaço de tempo, não obstaram à manutenção da boa qualidade. No segundo período de actividade, Licínio Pinto vai ser um dos nomes mais frequentemente vistos nos inúmeros painéis que se encontram espalhados por edifícios particulares e públicos.
Os primórdios do século XX vão trazer à fábrica novas dificuldades, sendo, nesse contexto, que alguns dos operários, jovens e dinâmicos, se lançarão na aventura de um novo empreendimento, a fábrica dos Santos Mártires, localizada no Bairro do Alboi, para produção de louça comum e azulejo. João Aleluia, um dos fundadores, acaba por ficar sozinho. A pressão do mercado e as condições insuficientes levaram-no a procurar um novo espaço em frente à antiga fábrica da Fonte Nova, marcando o ano de 1917 a edificação das novas instalações, as quais geraram uma empresa forte que rapidamente se impôs, agora com um novo nome - Fábrica Aleluia.
Dela saíram os azulejos actuais que replicam um dos padrões do corpo da igreja da Misericórdia, colocados no coro alto, e alguns objectos de uso comum, dos quais só resta um cachepô, em faiança, com uma decoração vegetalista e densa, lembrando a matriz clássica.
ELA (Empresa de louças e Azulejos) e EOAl (Empresa Olarias Aveirenses, Lda.) foram novas unidades fabris, ultrapassadas em dimensão e projecção pelo grande complexo que foi a fábrica Jerónimo Pereira Campos, hoje o Centro de Congressos.
Na região, é impossível a omissão do grande centro produtor de cerâmica que é a fábrica da Vista Alegre, satisfazendo um gosto arreigadamente português, vinculado à porcelana, anterior mesmo à montagem do comércio com o Oriente. Esta unidade fabril entra no mercado português simultaneamente com outras porcelanas europeias, afirmando-se a sua produção por uma qualidade e estilo próprios e a sua organização por um conceito inovador de empresa e de produção. Em 1824, José Ferreira Pinto Basto, filho de uma grande negociante do Porto, Domingos Ferreira Pinto Basto, instala a fábrica em terras que adquirira: a Quinta da Ermida, terrenos envolventes e a capela da Vista Alegre.
Na pequena colecção de porcelana da Misericórdia de Aveiro existem algumas jarras que seguem o modelo «neo-rocaille» aplicado em espécimes de grande efeito decorativo que o mercado americano bem absorveu. Aquelas, em porcelana esmaltada a branco, configuram um singular formato onde se casam o efeito decorativo com o funcional expresso nas aberturas do topo recortado em jeito de pega. São enriquecidas com ornatos profusos, relevados e aplicação de ouro mate. A composição floral é vari¬ada e o cromatismo vivo.
Próximas destas, mas muito mais singelas, são as jarras com ramo estampilhado sobre o esmalte branco e asas vazadas, formadas por delicadas hastes que, em enrolamentos suaves, percorrem o espaço do bojo ao colo.
Um outro modelo assume a forma de balaústre e toda a tónica ornamental assenta nos motivos relevados. Estes três tipos de jarra integraram fabricos da década de oitenta de 1900 (Marca 20) e foram especialmente usados, e ainda o são, com ramos de flores, em altares dos tem¬plos da região, designando-se, por isso como «jarras de igreja».
Um bule e um açucareiro tiveram função distinta, integrando serviço de chá, provavelmente para uso do hospital. Com forma de sólidos truncados e simplificados, dentro da estética da Arte Nova, pertencem ao fabrico que ocupou o período entre 1922-1947 (Marca 29). Em esmaltado a branco, o seu despojamento decorativo e a numeração parecem justificar a sua função.
Última actualização 23-08-19  Política de Privacidade |